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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Questões de Fé


Exaltação da Santa Cruz e tradição dos Cruzeiros

Dia 14 de setembro foi a festa da Exaltação da Santa Cruz. Devoção bem difundida no Brasil, nascido sob o signo da cruz. É a raiz da tradição de erguer Cruzeiros nas cidades, montes e praças públicas. Uma herança da evangelização e cultura europeia que marcaram nossa identidade religiosa no descobrimento. O primeiro ato de conquista das terras brasileiras foi dar-lhe o nome de Terra de Santa Cruz. Ergueu-se o primeiro Cruzeiro e celebrou-se a Primeira Missa. Infelizmente no início o símbolo religioso tornou-se um estandarte de posse do colonizador europeu.
Os portugueses, empunhando ora a cruz ora a espada, alargavam alargava os domínios da Coroa. Os índios não sabiam se respeitavam o crucifixo na mão dos missionários ou se temiam a espada do invasor. Este semeava a guerra, fazia pilhagem e saques causando sofrimentos, dores, aflições de todo o tipo aos nativos. O sangue regava a Palavra. Destruíram-se a vida, a cultura, o futuro dos indígenas com que "crucificando-os". Os atos do colonizador eram vistos oficialmente com: "ardor na fé e salvação das almas". " Converter e reduzir à fé" eram as expressões corriqueiras justificando a ocupação da terra. Assim a mensagem esperançosa da cruz, desvirtuada pela cobiça, tornou-se sinal de dominação, perseguição e morte.
Mas a linguagem da cruz por si é mais forte que a força do homens. Nela humilhado, Cristo a fez fonte libertadora para todos os povos. No Brasil o fermento da fé levedou a massa da miscigenação de raças e culturas, formando a identidade religiosa do nosso povo. O triunfo da força e do poder cedeu a uma nova evangelização que procura incultar a solidariedade e a vida do Senhor Crucificado na sociedade. Hoje os Cruzeiros pontilham o horizonte dos caminhos. Apesar do início sangrento da conquista eles se tornaram ponto de encontro e objeto da devoção popular. A cruz de Cristo ilumina a religiosidade popular. É o retrato do amor que liberta da dor. Proclama o mistério pascal e banha no sangue de Cristo os sofrimentos do povo ainda injustiçado e oprimido em seus direitos.
A desigualdade social gritante aproxima o povo sofredor da cruz porque esta lhe é anúncio de libertação e resgate da vida. o "tomar a cruz de cada dia" e seguir Jesus não é um conformismo alienado e sim ato resoluto do discípulo que, a exemplo de Paulo, professa com fé: "Eu me glorio na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo!" (Gl 6,14).
O Santo Cruzeiro nos lembra que Cristo venceu o pecado. Assim traçamos sobre nós este sinal de vitória! A cruz é o grito profético contra toda a marginalização humana. Grito sem voz, mas impossível não ouvi-lo. "A mensagem da cruz é escândalo e loucura para os homens, mas é força de Deus para nós." (1Cor 1,18). Só é lamentável que a superstição faça do Cruzeiro um "cemitério" de imagens quebradas.

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