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domingo, 16 de agosto de 2009

Dom Antônio Fernando Saburido

DIÁRIO DE PERNAMBUCO
Em entrevista coletiva concedida na manhã deste domingo o novo arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido respondeu de maneira traquila à todas as perguntas da impressa  Imagem: Aline Moura/DP/D.A. Press
Imagem: Aline Moura/DP/D.A. Press

Em entrevista coletiva concedida na manhã deste domingo, no Mosteiro de São Bento, em Olinda, o novo arcebispo de Olinda e Recife, Dom Antônio Fernando Saburido respondeu de maneira traquila à todas as perguntas da impressa e não evitou nem mesmo temas polêmicos como o aborto, pedofilia e a presença de homossexuais na Igreja. Mostrando que, apesar de admirar o trabalho de seus antecessores, como Dom Hélder Câmara e Dom José Cardoso, Dom Saburido já adiantou que tentará deixar a sua marca na arquidiocese e que orientará seu trabalho de maneira democrática, ou seja, ouvindo toda a comunidade católica antes de suas decisões. Veja os comentários feitos pelo novo arcebispo sobre:

Planejamento

Não decidi nada ainda. Farei uma reunião do clero, já na próxima terça-feira, para decidir os caminhos que irei seguir. Fiquei quatro anos fora e muita coisa aconteceu. Preciso me atualizar. Tenho que averiguar quais são as prioridades. Uma das perguntas que farei a este clero é sobre três pontos que eles acham positivos aqui na região e os três maiores problemas, aqueles que realmente merecem uma atenção especial.

Desafio

Encaro esse convite com humildade. Sinto-me muito pequeno diante de uma coisa tão grande. Quando soube que o Papa havia me escolhido a serviço do Recife eu fiquei gelado. Realmente me assustou. Estou aqui com muita humildade, confiando na Graça de Deus em primeiro lugar. Eu acredito que o evangelho nos ensina isso, que somos meros instrumentos, quem guia a Igreja é o Espírito Santo. Estou aqui para fazer a vontade de Deus.

Pastorais

Vamos ter que ver cada pastoral. Existem muitas divisões e realidades diferentes que precisam ser acompanhadas. Eu confesso que a minha linha é muito missionária. Foi assim o meu trabalho na Diocese de Sobral. As linhas missionárias e sociais se completam e merecem uma atenção especial.

Evasão

Eu acho que sem dúvida missões populares vão ajudar na evasão religiosa. Esse é um problema seriíssimo. Mas, eu sempre afirmo que as pessoas que abandonam a fé católica é porque são cristãos descomprometidos. Uma pessoa que vive a sua fé com responsabilidade dificilmente abandona. O que me preocupa é os que se dizem atualmente sem fé, sem credo nenhum. Isso é uma realidade nova que está crescendo entre nós. O desafio é grande e deverá ser enfrentado com a colaboração de todos, de todo o povo de Deus. Só assim as coisas vão se transformando.

Canonização de Dom Hélder

Existe a possibilidade, mas é uma coisa que tem que ser bem pensada, temos que ver um momento oportuno para iniciar algo tão grande assim.

Discriminação

A Igreja não discrimina ninguém. Todos são bem vindos. Homossexuais, prostitutas, qualquer pessoa que esteja numa situação social aparentemente difícil é aceita na Igreja. O que queremos é aquilo que está no evangelho. Jesus falou para a mulher adultera: vá e não peque mais. Então, o que nós buscamos é a conversão, mas não há discriminação. Isso é até contraditório. Todos são acolhidos, mas esperamos que eles façam esse esforço para seguir aquilo que a Igreja orienta.

Orientação

Dom José Cardoso ficou 24 anos arquidiocese. Eu tenho por ele muita admiração, muito respeito. Eu não tenho dúvidas que Dom José é uma pessoa bem intencionada. Ele sempre procurou fazer o bem, só que às vezes ele era mal interpretado. Dom José ama muita a Igreja e ama muito a eucaristia. Eu aprendi muito com Dom José, mas seguirei meu próprio caminho.

Diferenças

Cada cabeça é um mundo. Eu tenho minhas idéias para colocar em prática, mas não vou esquecer do trabalho dos meus antecessores. Por exemplo, o movimento Pró-Criança que Dom José criou aqui é uma coisa muito boa e deve ser valorizada. É um trabalho belíssimo que tem resgatado muitas crianças das ruas e precisa ser estimulado.

Prioridades

Ainda vou definir. Tudo será definido em assembléia. A Igreja trabalha de maneira muito democrática. Vou realizar uma assembléia arquidiocesana para definir isso. Quere convocar todo o povo de Deus para construir uma Igreja nova. Todos nós temos o mesmo objetivo, construir uma Igreja voltada para o povo, principalmente para as pessoas carentes.

Transferência

Pretendo trazer a cúria, que fica na Várzea, para o Palácio dos Manguinhos, que fica mais central, e tentarei transformar o seminário da várzea em um Centro de Pastoral.

Evangelho

O evangelho é libertador, não é para oprimir ninguém. Vou trabalhar essa linha. Se o evangelho não nos proporcionar essa mudança, nós estamos perdidos. Queremos orientar a arquidiocese nessa direção. Trabalhos que coloquem a palavra de Deus na prática.

Igrejas

Quero as Igrejas abertas. Não se entende Igrejas fechadas. As pessoas precisam de espaços para sentar, refletir, conversar. Isso eu defendo há muito tempo: organizar a arquidiocese para ter sempre alguém nas Igrejas para recepcionar os fiéis. Isso é só uma questão de organização. Existe o perigo ea insegurança, mas se a comunidade se organizar dá para contornar esses problemas.

Renovação Carismática

A renovação é um movimento aprovado pela Igreja. É um seguimento. Existe um documento da CNBB que orienta, dá diretrizes a esse movimento, e a gente vai segui-lo. Só não podemos escandalizar. Às vezes a renovação carismática faz algo que as pessoas não entendem. Por exemplo, a oração em línguas, tem muita gente que critica isso. Mas, para as pessoas que participam do movimento é algo ótimo. A gente só vai tentar não lançar mão desses recursos sempre, para as pessoas que não concordam ou não entendem não se escandalizarem. Os carismáticos são muito importantes para Igreja. Veja a questão da evasão religiosa, eles têm ajudado muito com suas pregações.

Sobral

Eu deixo a diocese com muita saudade. Sofri muito quando cheguei porque não conhecia nada de lá. Mas, depois de quatro anos muito intensos, eu sofro o dobro ao sair de lá. As pessoas são muito intensas, muito comprometidas. O tempo que eu passei em Sobral aproveitei da melhor maneira possível. Existe muita coisa pra ser feita lá, mas espero que outra pessoa continue o que deixei encaminhado. Tenho minha consciência em paz, acho que fiz o que deveria fazer.

Novas Igrejas

Infelizmente, hoje se abrem Igrejas como se abrem estabelecimentos comerciais. Temos que ver direito quais são as intenções por traz de tudo isso. Vocês estão vendo os casos que aparecem da Igreja Universal. Isso é preocupante. O que eu acho errado são as Igrejas que pregam a teologia da retribuição, você dá e Deus devolve. Deus não é isso. Deus é amor. O que precisa ser pregado é a prosperidade espiritual e não a econômica.

Drogas

Sou apaixonado pelo trabalho de recuperação. Passei muito tempo como “fazendeiro”, trabalhando com recuperação dos drogados. As fazendas fazem um bem muito grande e conseguem transformar a vida das pessoas. E é uma recuperação com cooperação de todos. Penso, sim, em fazer na arquidiocese um trabalho semelhante.

Jovens

A juventude é muito importante no processo da evangelização. Em 2007, a assembléia geral da CNBB tratou desse assunto. Os jovens são muito bem vindos. Os jovens são o presente da Igreja, não o futuro. Eles devem caminhar agora com a Igreja. Toda a pastoral da juventude será estimulada. Queremos a participação deles na Igreja.

Meios de Comunicação

A Igreja tem que mostrar a sua face e é a imprensa que ajuda esse trabalho. Não só a imprensa ligada a Igreja. Sempre procuro atender os jornalistas. Eu acho que eles estão ajudando a Igreja. Temos que ter toda a boa vontade de escuta-los e até agradecer nesse papel que eles assumem de evangelizadores também.

Pedofilia

A Igreja não pode aceitar essas questões. É tolerância zero mesmo. Pedofilia é algo que marca muito as crianças, deixa chagas profundissimas e a gente não pode permitir isso dentro da Igreja.

Aborto

A Igreja é muito clara com relação à questão do aborto. A Igreja defende a vida em qualquer circunstância. A excomunhão é uma sentença automática nesse caso, não é dada por alguma autoridade nenhuma. Cada caso é um caso. Pretendemos salvar a vida tanto da mãe quanto da filha sempre.

Casamento

O que é básico e fundamental é que todos são criados para serem felizes. Se um casal quer se unir em matrimônio, e de início vai tudo bem mas com o tempo a situação se torna insuportável - por vários fatores - não é certo se manter uma situação dessas, uma vez que o homem deve buscar sua felicidade. Se o casamento chega a esse grau, é melhor separar. O que a Igreja não aceita é um segundo casamento. O casamento é único.

Violência

O tema é muito preocupante. Esse ano, por exemplo, a campanha da fraternidade trata da violência. As pessoas estão matando por brincadeira. Mas, sabemos que muita gente parte para a violência por não ter direito à educação, acesso à moradia digna. Cada caso é um quadro. Não podemos condenar sem refletir sobre isso. A Igreja também pode ajudar a resolver os problemas sociais e é isso que vamos tentar.

Da Redação Do DIARIODEPERNAMBUCO.COM.BR com informações da repórter Aline Moura

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