
Entrevista
Dom Gil Antônio Moreira
Bispo de Jundiaí (SP)
Alguns dos maiores patrimônios da humanidade são os templos religiosos. Neles se condensam necessidades, alegrias, conquistas, a fé. Preservar esse patrimônio é resgatar nossa história e valorizar a manifestação de devoção. Dom Gil Antônio Moreira, bispo de Jundiaí (SP) e responsável pela Comissão dos Bens Culturais da Igreja no Regional Sul 1 da CNBB fala, nesta entrevista, sobre a evangelização pela arte e a necessidade do cuidado com o nosso patrimônio histórico e religioso.
Revista de Aparecida: Dom Gil, primeiramente, qual o trabalho realizado pela comissão de bens culturais?
Dom Gil Antônio Moreira: As Comissões de Bens Culturais da Igreja se encarregam, praticamente, de dois aspectos importantes na vida e na história das comunidades eclesiais:
1º) proteger todo o acervo cultural eclesiástico no que tange à arte sacra (arquitetura, escultura, entalhe, imagens em geral, pintura, paramentos, vasos sagrados etc.) de origem do passado e do presente, bem como os arquivos, museus e bibliotecas; 2º orientar as novas construções e fabricações de todas as espécies de bens culturais, acima relacionados. As Comissões de Bens Culturais da Igreja promovem cursos, palestras, simpósios, seminários, oficinas para ajudar as comunidades a preservarem e edificarem seu patrimônio cultural, litúrgico, religioso.
RdA: Falando em um conceito mais amplo, é possível evangelizar pela arte? Em que momento ela se torna caminho para a compreensão da Palavra?
Dom Gil: A utilização da arte e da cultura em prol da evangelização não é só possível, mas indispensável, eu diria mesmo, inevitável, pois a arte, o bom gosto e os elementos culturais são os principais veículos de comunicação que temos e estes devem ser postos a favor da transmissão da Palavra e dos Mistérios de Cristo.
A arte tem uma linguagem universal e sua mensagem pode ser compreendida por letrados e não letrados, alfabetizados e analfabetos. Ela contém também algo de oculto que vai se revelando à medida da profundidade da análise do observador, especialmente dos mais sensíveis de coração e aguçados de mente. Por exemplo, ao ver uma arquitetura majestosa como a do Santuário Nacional, o contemplador certamente não verá de início toda a riqueza das mensagens impressas nas paredes, nos números de portas, janelas, na altura dos elementos arquitetônicos, nos painéis, no piso etc. Pouco a pouco, se ele se deixa levar pelo clima de fé, de mística e pela sensibilidade do coração, irá descobrindo que ela não é uma edificação pura e simples, mas é uma verdadeira comunicação de religiosidade e de verdades do evangelho. O Santuário fala. É preciso saber ouvi-lo. Ele, por si, prega!
RdA: Qual a dimensão que devemos ter ao contemplar uma obra ou uma imagem para que possamos compreendê-la pela dimensão do símbolo sem cair na idolatria?
Dom Gil: A contemplação de uma escultura não é idolatria. Nem mesmo a veneração de uma fotografia, pintura ou imagem não é idolatria. Considerá-las assim seria sinal de pouco conhecimento da linguagem simbólica. O símbolo só se torna ídolo quando passa a ser admitido com um deus falso, atribuindo-lhe poderes que ele não tem. No caso das imagens cristãs, o que se dá não é, de nenhuma forma, isto. Fazem-se imagens como símbolos de algo que está além delas. Contemplam-se as imagens para maior conhecimento da pessoa nela representada e para aprender, aprofundar a fé e o amor a Deus transmitido, em vida, por aquela pessoa representada. A veneração é, portanto, não à escultura, mas diante da escultura. A veneração pode ser compreendida pelo gesto da mãe que beija a fotografia de um filho, do esposo que traz na carteira a foto da esposa, ou a atitude comum dos namorados que guardam com carinho fotos ou lembranças materiais da pessoa amada etc. Todos sabem que estão utilizando uma linguagem simbólica de expressão amorosa.
RdA: Aqui em Aparecida estamos restaurando a Matriz-Basílica, "antiga casa" de Nossa Senhora. Por que preservar o patrimônio histórico e de fé de uma cidade?
Dom Gil: A antiga Matriz-Basílica de Aparecida é um bem patrimonial de imenso valor religioso, artístico e cultural. Ela tem significado para o Brasil inteiro, pois guardou, por muito tempo, o maior símbolo religioso da nação, que é a imagem de Nossa Senhora, Padroeira do País, encontrada nas águas do rio Paraíba. Ela, para a cidade de Aparecida, é um bem cultural que tem lugar indiscutível na história do município, uma vez que a cidade de Aparecida nasceu e vive ao redor da devoção à Padroeira do Brasil. É importante que a cidade, com a união da população, o apoio e a parceria do poder público restaure e proteja este patrimônio de religiosidade e arte. Quanto aos aspectos artísticos, também o prédio merece uma valiosa restauração, pois são de elevado nível os elementos de arte nele presentes não só na arquitetura de inspiração barroca, como nos altares, pinturas e outros elementos. A Matriz-Basílica de Aparecida está presente na vida e no coração de milhões de brasileiros e só por isso se justificaria um excelente restauro e um esquema de perpétua preservação.
RdA: No Brasil, alguns patrimônios, principalmente templos, sofrem com restaurações irresponsáveis, que, na realidade, alteram a história iconográfica do lugar. Por que isso ainda acontece?
Dom Gil: A questão da restauração de bens culturais é algo um pouco preocupante pois, na verdade, nem todos os que pretendem trabalhar nestas obras têm competência e formação para tal. restaurar um bem cultural-religioso depende de muita informação sobre arte, religião, liturgia. Não basta querer ou fazer algo apenas para ter sua remuneração ou por gosto pessoal. Infelizmente, hoje em dia, há ainda padres inexperientes e comunidades pouco informadas que acabem pagando para se destruir seu patrimônio cultural/religioso, contratando pseudo-profissionais. Entregam serviços de real importância para aventureiros que, em vez de restaurar, acabam por danificar e perder o que nossos antepassados construíram com tanto amor e com grandes despesas. Um aventureiro que empreitasse um serviço de restauro sem a devida preparação para tal seria um irresponsável, quando não um criminoso. Suponho que nossos seminários devam se preocupar com boa formação para os futuros padres e respeito de arte-sacra, espaço litúrgico, elementos históricos de valor inalienável, arquivos e bibliotecas, para que possam prestar um verdadeiro serviço às suas comunidades, não só na preservação dos bens históricos, quanto aos restauradores, mesmo preparados tecnicamente, é necessário que saibam distinguir a restauração de uma peça destinada a museu, de um símbolo religioso destinado ao culto.



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